A Justiça sempre triunfa...  escrito em sexta 17 julho 2009 00:50

Embora eu não costume estar em contato com gente de outras civilizações, me arrisco a afirmar que o brasileiro é um dos povos mais supersticiosos da face do globo.

Em geral, somos fatalistas e bastante afeitos às explicações metafísicas. Acreditamos que o universo é regido por uma força mística que ordena todos os acontecimentos que influem sobre nossas vidas.

A nossa ética macumbeira (espero que não tomem essa expressão ao pé da letra; não pretendo fazer menção às religiões afro-brasileiras, mas sim ao misticismo popular em geral) é a ética da cabeça baixa e do conformismo. Se alguém nos bate na cara, não basta oferecer a outra face ao agressor. Sentimos uma espécie de júbilo interior, como se a humilhação extrema fosse um sinal inequívoco de que estamos predestinados à glória suprema. 

Na ética protestante dos calvinistas, vocês devem se lembrar, subir na vida era visto como um sinal de que o indivíduo era um predestinado à salvação.

A ética protestante fez com que os norte-americanos conquistassem o mundo. A ética macumbeira atirou o Brasil no atraso secular. Talvez, em futuro próximo, essa nossa índole conformista e fatalista possa vir a representar uma vantagem competitiva para o nosso povo na arena global. Aguardemos...

Fiz todo esse preâmbulo para comentar a respeito da humilhação a que o Cruzeiro foi submetido diante de sua torcida, na noite de ontem.

Parecia que o Cruzeiro era superior. Tinha os melhores craques e o futebol mais refinado. Tinha, ainda, o apoio da torcida e da grande mídia tupiniquim. 

Os argentinos do Estudiantes, por sua vez, eram vistos como a expressão máxima da decadência futebolística, metáfora esta que encontrava em Verón sua expressão mais bem acabada. 

Ao longo da partida, os argentinos bateram, provocaram e fizeram cera. Conseguiram, de fato, tirar os brasileiros do sério. Nos rostos dos jogadores do Cruzeiro, nos olhos dos 65 mil torcedores que lotaram o Mineirão, nas bocas dos comentaristas esportivas, a indignação era geral. 

Os argentinos eram os vilões que ludibriavam as regras do jogo no intuito de se darem bem. Os cruzeirenses, por seu turno, eram pintados como uma mocinha de novela mexicana, que suporta todas as agruras que a rival tenta lhe impor, para triunfar no final com um golpe de mestre avassalador. 

Ao final da partida, ouvi comentaristas dizerem que o Cruzeiro tinha mais time, só que não havia sido capaz de lidar com a catimba dos argentinos. 

É evidente que essa tese é digna de Zés Manés. No futebol, ganha quem tem brios. No esporte bretão, quem chora não mama; para tomar leite, é preciso destroçar o touro que cerca a vaca.

Os argentinos pintaram e bordaram para cima dos cruzeirenses. Bateram e provocaram, é fato. Mas fizeram isso com classe. Prova disso foi o tapa certeiro que o argentino desferiu na cara do favelado Kléber, durante aquela confusão ocorrida na segunda etapa. Quando resolveram apelar também para a violência, os cruzeirenses agiram como se fossem crianças birrentas e choronas. Se a partida não fosse no Mineirão, era bem provável que o árbitro tivesse mandado meio time do Cruzeiro mais cedo para o chuveiro.  

Ao recorrerem às formas refinadas de provocação, os argentinos fizeram muito mais do que provocar hematomas nos brasileiros; estraçalharam o espírito dos cruzeirenses. Transformaram a raposa numa presa fácil, incapaz de revidar as estocadas que o inimigo lhe desferia. 

Uma das coisas mais fáceis neste mundo é derrotar pessoas que acreditam que, no final, a Justiça sempre triunfa. Gente assim quase nunca se esforça para produzir uma reviravolta na situação adversa. Pelo contrário, acredita cegamente que uma energia invisível irá inverter a lógica dos acontecimentos. 

Apelidado de gladiador, Kléber ontem não passou de um garotinho chorão. Não teve a chance de exibir ao mundo seu talento de comediante da Praça é Nossa. Diante da ironia fina de Verón e companhia, sentiu-se rebaixado, humilhado, como se fosse um Renato Aragão posto ao lado de um Buster Keaton.

Na foto acima, vemos o bebê chorão prestes a cair sobre a piroca de um argentino.               

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