Ninguém!  escrito em domingo 03 janeiro 2010 02:56

Quem ainda está na faculdade, certamente conhece bem essa situação que irei descrever a seguir.

Anos atrás, eu procurava um estágio para poder bancar minhas contas enquanto ainda não estava formado. Quando você está numa universidade - e ainda por cima é jovem e cheio de energia -, o que não faltam são opções para você se divertir. Só que tudo é  pago. Como dizem os antigos, de graça, nem o galo quer saber mais de cantar.

Um belo dia, no mural de estágios da ECA, eis que encontro um anúncio que parecia ter sido redigido especialmente para mim.

Tratava-se de uma vaga de estágio para estudante de jornalismo numa empresa que atuava na área da saúde. Enviei meu currículo e fiquei aguardando. Dias depois, um cara me ligou, perguntando se eu estava a fim de participar da seleção que ocorreria na semana seguinte.

E lá fui eu. Quando cheguei ao local, havia mais três pessoas esperando ser chamadas. Nenhuma era estudante de jornalismo. Elas iriam disputar outras vagas.

Notei que o goiabinha do RH da empresa ficou um tanto decepcionado quando deu de cara com o pequeno (porém seleto!) grupo de candidatos que se colova à disposição das garras do grande capital.

Em todo caso, resolveu levar adiante o processo seletivo. Primeiro, pediu que nos apresentássemos e disséssemos por que motivo estávamos ali naquele dia.

Todos deram aquelas respostas padrão, do tipo: "Quero muito crescer enquanto ser humano e profissional, de preferência nesta empresa que é reconhecida no mercado por sua qualidade".

Confesso que também me saí com uma dessas.

Depois, o goiaba pediu que participássemos de uma dinâmica de grupo. Deveríamos pegar uns materiais (giz de cera, papel crepom, lã, feltro, lantejoulas) e colar numa cartolina. O objetivo era tentar demonstrar a forma como encarávamos o mundo.

Evidentemente, o meu trabalho ficou um desastre. Para contornar meu fracasso artístico, tentei justificar dizendo que eu via o mundo atual como uma grande confusão.

De fato, se não estou enganado, aquele foi o ano em que os Estados Unidos invadiram o Iraque sob o pretexto de que o miserável país árabe escondia armas de destruição em massa. Mas, quem liga para isso, no mundo corporativo?

O goiaba resolveu, então, indagar-nos a respeito de nossas convicções pessoais e de nossas crenças profissionais.

Na minha vez, ele veio me perguntar quem, entre nossos grandes jornalistas, poderia ser considerado um modelo profissional para mim?

"Ninguém", respondi.

"Como assim? Você não admira nenhum de nossos jornalistas?", retrucou o goiaba, perplexo.

Adivinhem se consegui a vaga? - sobretudo depois que, ao responder a questão seguinte, critiquei a submissão do governo brasileiro aos organismos financeiros internacionais.

Hoje, refletindo bem sobre essa passagem de minha existência, fico feliz por ter tido a coragem de dizer aquilo que pensava.

Ainda acredito que não há jornalistas no Brasil dignos de ser admirados.

Primeiro, porque jornalista não pode ser grande nem admirado. Tem de ser discreto. Nossa profissão é de formiguinha, não de pavão.

Uma das maiores desgraças do jornalismo foi essa história de jornalista querer ser maior do que a notícia que veicula.

Por outro lado, penso que os jornalistas brasileiros, principalmente os mais badalados, não merecem um pingo de respeito nem do mais reles e desprezível dos seres humanos que já puseram os pés neste mundo infeliz.

Alguém que se curva como lacaio para a fina flor do atrasado de nossa sociedade não merece o respeito de ninguém, quanto mais a minha admiração, que só é destinada a pessoas de fato honradas.

Gente que ganha a vida fazendo o jogo sujo daqueles que lucram às custas da desnutrição de nossas crianças e da miséria de nossos trabalhadores só merece o meu desprezo.

São parasitas travestidos de jornalistas, vermes com devaneios grandiloquentes. Acreditam que são capazes de controlar as mentes dos pobres mortais. Utilizam um instrumento que deveria ser de transformação social para perpetuar as injustiças.

Naquele dia, depois da entrevista, fiquei matutando, matutando... É que eu gostava demais de ler as matérias do Ricardo Kotscho. Tinha a impressão de que ele sim jogava do lado dos mais fracos.

Lembro de ter lido vários textos em que ele dizia que o jornalista deve sempre estar do lado dos mais fracos.

Meses atrás, porém, Kotscho me decepcionou, quando chamou de vândalos, em seu blog, os sem-terra que ocuparam a monocultura da Cutrale, em Areiópolis (SP).

Nunca imaginei que ele pudesse ficar a favor de uns dos maiores crápulas do agronegócio brasileiro(perdão pelo pleonasmo), o senhor José Luís Cutrale, grileiro de terras públicas (como as que os sem-terra ocuparam em Areiópolis) e detentor de 30% do comércio mundial de suco de laranja.

A menos que, é claro, Kotscho considerasse que os pés de laranja indefesos (foto) derrubados pelos sem-terra fossem o lado fraco da história.

Inicialmente, fiquei meio chateado pelo fato de Kotscho ter se bandeado para o lado dos grandes grileiros de terras públicas. 

Depois, lembrei-me de que ele teve uma carreira de destaque em diversos jornalões brasileiros, órgãos que sempre estiveram alinhados com o que há de mais atrasado em nossa política. 

"É. Ele bem merece ter a fama que tem", admiti.

Descanse em paz, meu antigo ídolo. Você bem mereceu ser esquecido naquele dia.      

 

  

 

permalink

A personificação de nosso atraso  escrito em domingo 03 janeiro 2010 02:07

Certa vez, há alguns anos, um amigo me convidou para dar uma entrevista em seu programa numa rádio comunitária de Reginópolis. Muitos de vocês talvez nunca tenham ouvido falar dessa bela cidadezinha do Interior de São Paulo. É bem verdade que, por muito tempo, Reginópolis pertenceu a Iacanga. Era conhecida como distrito de Batalha, em homenagem ao rio de mesmo nome que corta a cidade ao meio.

A entrevista versaria sobre jornalismo, área em que eu acabara de me formar, mas que ainda pouco conhecia. Naquele tempo, nem empregado eu estava. Por outro lado, acredito que conseguia arranhar razoavelmente a parte teórica da coisa. Levando-se em conta que meu entrevistador não era nenhum Alberto Dines, resolvi topar a parada.

O camarada perguntou de tudo: Hebe, Sílvio Santos e Jô Soares (ídolo máximo do entrevistador; por sinal, meu amigo tentava  imitar o gordo chato a todo instante, só atingindo seu objetivo nas inúmeras vezes em que foi sem graça); menos a respeito de jornalismo.

De repente, ao final da entrevista, eis que ele me fulmina com uma pergunta a respeito do Boris Casoy. Nem me lembro muito bem qual foi a questão. Só me recordo que meu amigo tentava, de certa forma, enaltecer essa figura abjeta e rançosa, talvez a maior personificação do atraso de nossa imprensa e mesmo da cultura nacional.

Sim, pois só num país extremamente atrasado em termos culturais, aquele ser embolorado e de linguinha arrebitada poderia receber espaço privilegiado em uma grande rede de TV aberta para falar asneiras impunemente. Fosse na Holanda ou na Itália (vejam que não me refiro a Holambra nem Itatiba, como na propaganda do Serra), esse cidadão seria visto como um pobre coitado consumido pelo rancor e pela senilidade. Talvez abrissem alguma brecha para ele numa TV em circuito fechado voltada para os moradores de Higionópolis e dos Jardins.

No Brasil, porém, Boris Casoy é tratado como o supra-sumo da inteligência desviante, um intelectual orgânico que não se curva aos denaveios autoritários do retirante de nove dedos. 

Pode até xingar coletores em lixo e referir-se a eles, em rede nacional, como "o mais baixo da escala do trabalho".

"Dois lixeiros..." 

É assim que o "Ranço" se refere a dois trabalhadores, dois cidadãos honestos que exercem uma função essencial em nossa sociedade hipócrita e consumista. 

"Do alto de suas vassouras", eles recolhem o lixo que os porcos imundos espalham pela cidade. Tornam mais aceitável nossa miserável existência. 

Para quem não sabe, na edição do dia 1 de janeiro de 2009, o Jornal da Band veiculou uma série de mensagens de "Feliz Ano Novo" vindas de brasileiros comuns. 

Após uma reportagem sobre a Mega Sena, "Ranço" chamou o intervalo. Apareceram, em seguida, dois garis com sotaque nordestino que desejavam "Feliz 2010" e muita saúde e paz aos telespectadores. Aparentavam ser muito simpáticos e irradiavam alegria, do alto de suas vassouras. 

A vinheta do intervalo entrou, mas "Ranço" não percebeu que o áudio do estúdio ainda estava no ar. Passou a comentar uma série de impropérios sobre os garis com um outro babaca que estava no estúdio, provavelmente Joelmir Betting, o pai de Míriam Leitão. 

Os leitores podem conferir a "gafe" no vídeo ao lado. Não é à toa que o senhor Ranço destila tanto ódio contra os movimentos sociais em seus comentários. Não é por acaso que esse miserável tem tanto rancor contra o presidente da República, um nordestino pobre que, do alto de suas ferramentas de trabalho, conseguiu atingir o ponto mais alto na escala da política mundial. 

Antes que alguém me chame de desconexo, vou dizer o que respondi ao meu amigo naquela entrevista. "Ranço" acabara de ser demitido do canal onde trabalhava (para ser sincero, nem me lembro direito qual era). 

A resposta foi mais ou menos esta: "Boris Casoy é um sujeito muito sem graça. É um chato de galocha. Seu estilo é ultrapassado e ele não passa de um falso moralista. Assistir aos comentários dele me dá azia.  Acredito que ele foi tarde (sobre o fato de ter sido escurraçado da outra emissora). Tomara que nunca mais consiga emprego. Já passou da época de ele se aposentar."

Mantenho minhas palavras e não acrescento ou tiro uma vírgula que seja. 

PS: Se houvesse alguém com culhão na diretoria da Bandeirantes, o "Ranço" já estaria no olho da rua. É evidente que nada acontecerá a ele, já que seus patrões pertencem à fina flor do atraso da sociedade brasileira e certamente comungam de suas ideias torpes. 

     

permalink

Maldita Internet  escrito em sexta 06 novembro 2009 23:09

Problemas técnicos têm impedido que este arauto da imoralidade escreva com mais freqüência a vocês. Pode ser que eu mude o site onde este humilde blog está hospedado. Se é que alguém ainda se arrrisca a olhar este site.

Para quem achava que eu havia morrido, eis-me aqui. Espero aparecer com mais freqüência, seja aqui ou em outro endereço. 

Abraços a todos.  

permalink

O Vampiro Brasileiro levou seus agouros ao Mineirão  escrito em sexta 17 julho 2009 01:51

Há quem diga que Bento Carneiro levou maus agouros ao Mineirão, na noite de ontem. Seria esta a causa da derrota da Cruzeiro. Que Bento Carneiro é um Zé Zica, eu até concordo. Mas não podemos esquecer que o time do Cruzeiro era uma merda: Wellington Paulista, Thiago Ribeiro, Marquinhos Paraná e Leonardo Silva não servem nem para atuar na Série B do Brasileirão.

Kléber, que muitos chamam de craque, nunca venceu um título de expressão no futebol brasileiro, desde que se tornou um atleta profissional. O único campeonato que ele venceu foi o combalido Paulistão do ano passado, o que, em termos práticos, não quer dizer nada.

A falta de opções de qualidade no elenco do Cruzeiro era tão crítica que até Athirson precisou entrar em campo, na final de ontem. E eu, que julgava que essa figura tão amada pela mídia flamenguista (talvez julgassem seu futebol limitado pelas madeixas onduladas que ele possuía no passado) já havia pendurado as chuteiras e estivesse habitando algum retiro para ex-atletas.

O Estudiantes ganhou porque tinha mais time e pegou um cavalo paraguaio pela frente. Bento Carneiro não teve qualquer participação na derrota do Cruzeiro. 

Aliás, o Vampiro Brasileiro é um ser tão insignificante, que não teria condições sequer de influenciar o destino das fezes que deposita diariamente na privada do Palácio dos Bandeirantes. Na foto, vemos Bento Carneiro se preparando para distribuir brindes a um grupo de moradores da Favela de Paraisópolis    

permalink

A Justiça sempre triunfa...  escrito em sexta 17 julho 2009 00:50

Embora eu não costume estar em contato com gente de outras civilizações, me arrisco a afirmar que o brasileiro é um dos povos mais supersticiosos da face do globo.

Em geral, somos fatalistas e bastante afeitos às explicações metafísicas. Acreditamos que o universo é regido por uma força mística que ordena todos os acontecimentos que influem sobre nossas vidas.

A nossa ética macumbeira (espero que não tomem essa expressão ao pé da letra; não pretendo fazer menção às religiões afro-brasileiras, mas sim ao misticismo popular em geral) é a ética da cabeça baixa e do conformismo. Se alguém nos bate na cara, não basta oferecer a outra face ao agressor. Sentimos uma espécie de júbilo interior, como se a humilhação extrema fosse um sinal inequívoco de que estamos predestinados à glória suprema. 

Na ética protestante dos calvinistas, vocês devem se lembrar, subir na vida era visto como um sinal de que o indivíduo era um predestinado à salvação.

A ética protestante fez com que os norte-americanos conquistassem o mundo. A ética macumbeira atirou o Brasil no atraso secular. Talvez, em futuro próximo, essa nossa índole conformista e fatalista possa vir a representar uma vantagem competitiva para o nosso povo na arena global. Aguardemos...

Fiz todo esse preâmbulo para comentar a respeito da humilhação a que o Cruzeiro foi submetido diante de sua torcida, na noite de ontem.

Parecia que o Cruzeiro era superior. Tinha os melhores craques e o futebol mais refinado. Tinha, ainda, o apoio da torcida e da grande mídia tupiniquim. 

Os argentinos do Estudiantes, por sua vez, eram vistos como a expressão máxima da decadência futebolística, metáfora esta que encontrava em Verón sua expressão mais bem acabada. 

Ao longo da partida, os argentinos bateram, provocaram e fizeram cera. Conseguiram, de fato, tirar os brasileiros do sério. Nos rostos dos jogadores do Cruzeiro, nos olhos dos 65 mil torcedores que lotaram o Mineirão, nas bocas dos comentaristas esportivas, a indignação era geral. 

Os argentinos eram os vilões que ludibriavam as regras do jogo no intuito de se darem bem. Os cruzeirenses, por seu turno, eram pintados como uma mocinha de novela mexicana, que suporta todas as agruras que a rival tenta lhe impor, para triunfar no final com um golpe de mestre avassalador. 

Ao final da partida, ouvi comentaristas dizerem que o Cruzeiro tinha mais time, só que não havia sido capaz de lidar com a catimba dos argentinos. 

É evidente que essa tese é digna de Zés Manés. No futebol, ganha quem tem brios. No esporte bretão, quem chora não mama; para tomar leite, é preciso destroçar o touro que cerca a vaca.

Os argentinos pintaram e bordaram para cima dos cruzeirenses. Bateram e provocaram, é fato. Mas fizeram isso com classe. Prova disso foi o tapa certeiro que o argentino desferiu na cara do favelado Kléber, durante aquela confusão ocorrida na segunda etapa. Quando resolveram apelar também para a violência, os cruzeirenses agiram como se fossem crianças birrentas e choronas. Se a partida não fosse no Mineirão, era bem provável que o árbitro tivesse mandado meio time do Cruzeiro mais cedo para o chuveiro.  

Ao recorrerem às formas refinadas de provocação, os argentinos fizeram muito mais do que provocar hematomas nos brasileiros; estraçalharam o espírito dos cruzeirenses. Transformaram a raposa numa presa fácil, incapaz de revidar as estocadas que o inimigo lhe desferia. 

Uma das coisas mais fáceis neste mundo é derrotar pessoas que acreditam que, no final, a Justiça sempre triunfa. Gente assim quase nunca se esforça para produzir uma reviravolta na situação adversa. Pelo contrário, acredita cegamente que uma energia invisível irá inverter a lógica dos acontecimentos. 

Apelidado de gladiador, Kléber ontem não passou de um garotinho chorão. Não teve a chance de exibir ao mundo seu talento de comediante da Praça é Nossa. Diante da ironia fina de Verón e companhia, sentiu-se rebaixado, humilhado, como se fosse um Renato Aragão posto ao lado de um Buster Keaton.

Na foto acima, vemos o bebê chorão prestes a cair sobre a piroca de um argentino.               

permalink