Quem ainda está na faculdade, certamente conhece bem essa situação que irei descrever a seguir.
Anos atrás, eu procurava um estágio para poder bancar minhas contas enquanto ainda não estava formado. Quando você está numa universidade - e ainda por cima é jovem e cheio de energia -, o que não faltam são opções para você se divertir. Só que tudo é pago. Como dizem os antigos, de graça, nem o galo quer saber mais de cantar.
Um belo dia, no mural de estágios da ECA, eis que encontro um anúncio que parecia ter sido redigido especialmente para mim.
Tratava-se de uma vaga de estágio para estudante de jornalismo numa empresa que atuava na área da saúde. Enviei meu currículo e fiquei aguardando. Dias depois, um cara me ligou, perguntando se eu estava a fim de participar da seleção que ocorreria na semana seguinte.
E lá fui eu. Quando cheguei ao local, havia mais três pessoas esperando ser chamadas. Nenhuma era estudante de jornalismo. Elas iriam disputar outras vagas.
Notei que o goiabinha do RH da empresa ficou um tanto decepcionado quando deu de cara com o pequeno (porém seleto!) grupo de candidatos que se colova à disposição das garras do grande capital.
Em todo caso, resolveu levar adiante o processo seletivo. Primeiro, pediu que nos apresentássemos e disséssemos por que motivo estávamos ali naquele dia.
Todos deram aquelas respostas padrão, do tipo: "Quero muito crescer enquanto ser humano e profissional, de preferência nesta empresa que é reconhecida no mercado por sua qualidade".
Confesso que também me saí com uma dessas.
Depois, o goiaba pediu que participássemos de uma dinâmica de grupo. Deveríamos pegar uns materiais (giz de cera, papel crepom, lã, feltro, lantejoulas) e colar numa cartolina. O objetivo era tentar demonstrar a forma como encarávamos o mundo.
Evidentemente, o meu trabalho ficou um desastre. Para contornar meu fracasso artístico, tentei justificar dizendo que eu via o mundo atual como uma grande confusão.
De fato, se não estou enganado, aquele foi o ano em que os Estados Unidos invadiram o Iraque sob o pretexto de que o miserável país árabe escondia armas de destruição em massa. Mas, quem liga para isso, no mundo corporativo?
O goiaba resolveu, então, indagar-nos a respeito de nossas convicções pessoais e de nossas crenças profissionais.
Na minha vez, ele veio me perguntar quem, entre nossos grandes jornalistas, poderia ser considerado um modelo profissional para mim?
"Ninguém", respondi.
"Como assim? Você não admira nenhum de nossos jornalistas?", retrucou o goiaba, perplexo.
Adivinhem se consegui a vaga? - sobretudo depois que, ao responder a questão seguinte, critiquei a submissão do governo brasileiro aos organismos financeiros internacionais.
Hoje, refletindo bem sobre essa passagem de minha existência, fico feliz por ter tido a coragem de dizer aquilo que pensava.
Ainda acredito que não há jornalistas no Brasil dignos de ser admirados.
Primeiro, porque jornalista não pode ser grande nem admirado. Tem de ser discreto. Nossa profissão é de formiguinha, não de pavão.
Uma das maiores desgraças do jornalismo foi essa história de jornalista querer ser maior do que a notícia que veicula.
Por outro lado, penso que os jornalistas brasileiros, principalmente os mais badalados, não merecem um pingo de respeito nem do mais reles e desprezível dos seres humanos que já puseram os pés neste mundo infeliz.
Alguém que se curva como lacaio para a fina flor do atrasado de nossa sociedade não merece o respeito de ninguém, quanto mais a minha admiração, que só é destinada a pessoas de fato honradas.
Gente que ganha a vida fazendo o jogo sujo daqueles que lucram às custas da desnutrição de nossas crianças e da miséria de nossos trabalhadores só merece o meu desprezo.
São parasitas travestidos de jornalistas, vermes com devaneios grandiloquentes. Acreditam que são capazes de controlar as mentes dos pobres mortais. Utilizam um instrumento que deveria ser de transformação social para perpetuar as injustiças.
Naquele dia, depois da entrevista, fiquei matutando, matutando... É que eu gostava demais de ler as matérias do Ricardo Kotscho. Tinha a impressão de que ele sim jogava do lado dos mais fracos.
Lembro de ter lido vários textos em que ele dizia que o jornalista deve sempre estar do lado dos mais fracos.
Meses atrás, porém, Kotscho me decepcionou, quando chamou de vândalos, em seu blog, os sem-terra que ocuparam a monocultura da Cutrale, em Areiópolis (SP).
Nunca imaginei que ele pudesse ficar a favor de uns dos maiores crápulas do agronegócio brasileiro(perdão pelo pleonasmo), o senhor José Luís Cutrale, grileiro de terras públicas (como as que os sem-terra ocuparam em Areiópolis) e detentor de 30% do comércio mundial de suco de laranja.
A menos que, é claro, Kotscho considerasse que os pés de laranja indefesos (foto) derrubados pelos sem-terra fossem o lado fraco da história.
Inicialmente, fiquei meio chateado pelo fato de Kotscho ter se bandeado para o lado dos grandes grileiros de terras públicas.
Depois, lembrei-me de que ele teve uma carreira de destaque em diversos jornalões brasileiros, órgãos que sempre estiveram alinhados com o que há de mais atrasado em nossa política.
"É. Ele bem merece ter a fama que tem", admiti.
Descanse em paz, meu antigo ídolo. Você bem mereceu ser esquecido naquele dia.

